Sandro Aléssio

Professor de Física | UFOPA

Me tornando físico

Lateral da faculdade de Física da UFPA.

A escolha pelo bacharelado em Física foi feita por mim também com o propósito de se trabalhar somente para a pesquisa. Mero engano, pois ser bacharel em Física no Brasil, trabalhando somente com pesquisa é algo incomum. A pesquisa em Física no Brasil, na sua maior parte, se encontra nas universidades, e nelas, obviamente, a docência será consequência. Pouco tempo depois, comecei perceber o gosto pela docência, pois comecei a trabalhar num curso pré vestibular popular. Ali já começava as minhas primeiras inquietações como docente, eu não aceitava a concepção de ensino propagada e entranhada até nos alunos. O professor ideal era aquele que resolvia o maior número de questões, era o que brincava mais com os alunos, o que não precisava de livros em sala de aula, e o que “não fugia” do conteúdo programático… Não tive interesse em permanecer ali por muito tempo, só o estritamente necessário. Aquilo tudo parecia muito mecânico pra mim! Jamais pensei em voltar à esse sistema de ensino.

Na graduação tive a oportunidade de escolher as chamadas ‘disciplinas optativas’, em que dentre uma série delas eu deveria escolher as que mais me interessavam, para cumprir certa quantidade de créditos acadêmicos. Escolhi uma que poucos graduandos de Física escolhiam, a Biofísica. A palavra “bio” na cabeça de muitos deles, soava como “isso não é física”! Infelizmente essa era uma mentalidade muito restrita que alguns deles tinham da ciência em geral, e que em parte, era reflexo da própria concepção de ciência exclusivamente positivista, muita arraigada ainda nos dias de hoje… A escolha por fazer essa disciplina foi muito acertada! Ela intensificou meu interesse pela Biofísica e também pela Física Médica, que acabou sendo tema do meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). E a partir daquele momento, sempre fazia leituras sobre o assunto, como por exemplo, sobre os processos físicos do radiodiagnóstico e da radioterapia. Cheguei até a participar de um encontro sobre Radiologia…

Tive a oportunidade de participar de um curso sobre Física Conceitual, durante todo o mês de julho de 2001, ministrado pelo Prof. Dr. Antônio Bulhosa Nassar. O curso foi excelente e me despertou bastante para a importância dos conceitos no ensino de Física, muitas vezes tão negligenciados pela educação básica, se estendendo até o nível superior, enfatizado apenas em cálculos para a resolução de exercícios e avaliações.

Conheci naquela época e em épocas posteriores, acadêmicos do curso de Letras, que me foi de grande valia, despertando-me mais a vontade pela escrita e pela arte da poesia. Penso que a Física também é a poesia da natureza, Física e Poesia têm tudo a ver! Ambas são expressões da criatividade humana e ambas perseguem um ideal estético. Seria interessante esse contato mais próximo da ciência com a arte! É interessante ler artigos sobre o tema como por exemplo Moreira (2002)1MOREIRA, I. de C., Poesia na sala de aula de ciências? Física na Escola, v. 21, n. 3, p. 17–23, 2002. ISSN 00067431. Disponível em: http://www.sbfisica.org.br/fne/Vol3/Num1/a07.pdf. e Lerias (2004)2LERIAS, W. R., O Romance da Física. [S.l.]: Public Publish Ilimited, 2003..

Fachada do Instituto de Educação Matemática e Científica – IEMCI – UFPA.

Após 2 anos do término da minha graduação, fui selecionado como bolsista para participar de um projeto de pesquisa do CNPQ, na modalidade Desenvolvimento Tecnológico Industrial, categoria 1, nível E, com dedicação exclusiva. Eu desenvolvia junto à equipe do projeto, softwares voltados à aprendizagem da “matemática do ensino médio”. Isso aconteceu quase no mesmo momento que eu entrava para o Mestrado em Educação em Ciências em 2006, no antigo NPADC (Núcleo Pedagógico de Apoio ao Desenvolvimento Científico) da UFPA, hoje conhecido como IEMCI (Instituto de Educação Matemática e Científica). No IEMCI tive contato com novas visões sobre a ciência e a educação como nunca antes havia imaginado! Minha mente se abriu para versões e entendimentos a respeito dos porquês da ciência e da educação serem hoje o que são. A minha vontade pela docência se ampliou! Participava de um grupo de pesquisa sobre modelagem matemática, liderado pelo Prof. Dr. Adilson Ribeiro. Pude perceber através da modelagem como a natureza se expressa perfeitamente em suas diversas formas, inclusive as “imperfeitas”, e o quanto essa metodologia pode ser interessante na educação matemática e científica! Escolhi entrar naquele programa de pós-graduação porque queria também dar um sentido pedagógico aos futuros softwares do projeto que mencionei. Não se pode construir um software educacional sem se preocupar com a concepção pedagógica de criação do mesmo! Software educacional não é código pelo código!… Durante a minha trajetória no mestrado, esse projeto mudou um tanto de rumo, mudando também o que estava definido no meu pré-projeto de pesquisa, pois de certa forma estavam vinculados. Dessa forma, a minha pesquisa nada mais teve a ver com softwares educacionais, mas sim com o processo de ensino e aprendizagem através de uma metodologia baseada no Método Keller (1968)3KELLER, F. S., “Good-bye, teacher…”, Journal of Applied Behavior Analysis, 1, 79-89 (1968). Reproduzido em Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, Vol.1, nº 1, 9-21, 1999.. Daí surgiu minha dissertação de mestrado,  que foi um trabalho corajoso e único até aquele momento no IEMCI por protagonizar esse tema, aparentemente esquecido, ou negligenciado, ou ainda envolvido de preconceitos por alguns pesquisadores da educação… Posteriormente, um artigo foi produzido à partir dessa dissertação e foi publicado na Revista Brasileira de Ensino de Física.

Material consultado   [ + ]

1. MOREIRA, I. de C., Poesia na sala de aula de ciências? Física na Escola, v. 21, n. 3, p. 17–23, 2002. ISSN 00067431. Disponível em: http://www.sbfisica.org.br/fne/Vol3/Num1/a07.pdf.
2. LERIAS, W. R., O Romance da Física. [S.l.]: Public Publish Ilimited, 2003.
3. KELLER, F. S., “Good-bye, teacher…”, Journal of Applied Behavior Analysis, 1, 79-89 (1968). Reproduzido em Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, Vol.1, nº 1, 9-21, 1999.

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