Sandro Aléssio

Professor de Física | UFOPA

Observando a natureza

Observar a natureza e seus fenômenos talvez seja a atividade mais antiga da humanidade e de sua ancestralidade. Ela pode despertar perguntas fundamentais sobre nosso passado, presente e futuro. Como nós surgimos na Terra? Qual a origem do universo? Como se explica determinado acontecimento ou fenômeno? São questões que podem surgir com essa observação. Se não há perguntas, então não há dúvidas, e assim não há evolução científica, social e tecnológica. A dúvida é gerada pela curiosidade, e se não há interesse no saber, a vida se estagna.

O ato de observar a natureza no mundo contemporâneo, parece que tem perdido cada vez mais espaço para o mundo tecnológico. Observar o céu com suas modificações e seus fenômenos, hoje perde muito seu lugar para as telas de celulares e eletrônicos em geral, com outras finalidades. A humanidade que no passado muito olhou para cima, hoje tem o pescoço voltado para baixo… Um simples olhar ingênuo de uma paisagem nos remete a lembranças, a sentimentos e sensações, que nem uma outra tela plana pode simular com perfeição. E um observar mais crítico, fez e tem feito o conhecimento da humanidade se expandir.

Hoje acredito que ensinar a partir da temática ‘meio ambiente’, com suas imagens, com os fenômenos presentes no nosso cotidiano, assim como, da tecnologia e dos problemas sociais e ambientais atuais, é a forma mais contextualizada de ensinar Física e demais ciências.

Dessa forma, a interdisciplinaridade tão almejada na ciência pós-moderna, que fora um tanto esquecida com a especialização e compartimentação dos saberes disciplinares durante a história, surge naturalmente nessa proposta.

A educação ambiental nos fornece possibilidades temáticas para desenvolver esse ensino bem contextualizado, interdisciplinar e articulado com questões sociais, por isso é meu ponto de partida preferido para minhas atividades como docente. E pensar em educação ambiental de forma não compartimentada, não isolada de outros saberes, é pensar de forma mais holística ou sistêmica (emprestando as palavras e o sentido que dá Fritjof Capra*). É o pensar integrado com outros conhecimentos…

Jean Willian Fritz Piaget (09/08/1896 – 16/09/1980) mais conhecido como Jean Piaget, foi um Biólogo, Psicólogo e Epistemólogo suíço, considerado um dos mais importantes pensadores do século XX. Ele conta que certa vez um professor de Física advertiu um aluno que, distraindo-se durante a aula, fixava o olhar no céu, contemplando algo. Sentindo-se ofendido por não ter a atenção daquele “pupilo”, o professor dirigiu-lhe uma dura repreensão. Deveria o garoto voltar imediatamente o olhar para a aula, cujo assunto era óptica. O aluno estava nada mais que observando um belo arco-íris!

Que bela oportunidade aquele professor perdeu… Muitas vezes a insistente perseguição aos conteúdos e não aos saberes em si, cega professores e demais profissionais da Educação, subtraindo dos alunos momentos únicos de observação e vivência prática. Além disso, decisões que interferem diretamente na educação básica ou superior, muitas vezes são tomadas apenas por interesses políticos, alheios às vozes dos educadores e pensadores contemporâneos.


Uma atividade1DIAS, G. Atividades Interdisciplinares de Educação Ambiental. Editora Gaia, 2015.
ISBN 9788575553350.
adaptada envolvendo educação ambiental no ensino de Física, e que tem como pressuposto inicial a importância da atenção aos fenômenos naturais, é explanada a seguir.

  • Quando ocorrerem fenômenos naturais como chuva, aparecimento de um arco-íris, queda de granizo, formação de neblina, ventos fortes, redemoinhos, trovoadas, relâmpagos ou quaisquer outros, interrompa a atividade que estiver executando e volte a atenção para aqueles fenômenos.

  • Observe o máximo que puder. Em seguida, promova uma discussão sobre o tema, incluindo questões como:

    • Por que ocorrem tais fenômenos?
    • Quais as suas funções?
    • Quais as consequências positivas e negativas do fenômeno observado?
  • Fazer registro fotográfico de uma mesma área sob diferentes condições ambientais, por exemplo, um registro no período de cheia dos rios, e outro no mesmo local, no período mais seco. Uma outra possibilidade seria avaliar imagens tiradas de tempos distantes do mesmo local, como essas imagens da Patagônia num intervalo de 84 anos.

O degelo na Patagônia, na Argentina, de 1928 a 2012.

POSSÍVEIS DISCUSSÕES:

A ênfase é no aproveitamento do momento. Aproveitar o instante em que a natureza expressa seus movimentos, suas forças, exibindo suas cores.

Caso não surjam respostas para todas as perguntas sugeridas, buscá-las depois. A ideia é estimular a apreciação, inclusive estética, dos fenômenos naturais. Isso amplia a percepção e estimula a sensibilidade das pessoas.

O processo educativo é eminentemente prático. Não se pode alcançar a plenitude da consciência analítica e crítica apenas com teorias no papel. O fazer, o observar, o sentir são essenciais.

*P.S.: Fritjof Capra, físico e teórico de sistemas, é autor de vários best-sellers em em diversos países, como O Tao da Física, O Ponto de de Mutação, Sabedoria Incomum, Pertencendo ao Universo, A Teia da Vida e As conexões ocultas, publicados pela Editora Cultrix. O seu livro mais recente é A Ciência de Leonardo da Vinci, também publicado por esta editora. Fritjof Capra é um dos diretores-fundadores do Centro de Ecoalfabetização de Berkeley, que promove a divulgação do pensamento ecológico e sistêmico nas redes de educação primária e secundária, e já foi tema de documentários e diversos artigos de revista. Atualmente ele mora em Berkeley, Califórnia.

 

 

Material consultado   [ + ]

1. DIAS, G. Atividades Interdisciplinares de Educação Ambiental. Editora Gaia, 2015.
ISBN 9788575553350.

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